Começando…

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Então eu estava em Nova Iorque, com uma bolsa do governo brasileiro, a Bolsa Virtuose (é inacreditável que esses projetos desapareçam, como se não tivessem importância nenhuma, uma mediocridade só desse governos de bosta…) e fui ver essa peça, no PS 121 (espaço onde está ou esteve sediado o Mabou Mines e outras companhias e que foi « curado » por anos pelo Mark Russel, hoje dirigindo o Under The Radar Festival, que acontece no Public Theater).

Então fui ver essa peça, não lembro do dia nem do mês, mas foi com certeza pouco antes da torres caírem (uma historia a parte, que merece um parêntese longo : estava morando no Brooklyn e fazendo o treinamento com a SITI Company, depois de ter passado um mês em Saratoga, no intensivo de verão. Peguei meu metrozinho em direção a Manhatan, e quando ele passou por uma parte externa, para fora de seu buraco, deu pra ver o World Trade Center com uma fumaça, ou melhor, duas fumaças, que se espalhavam por um céu bem azul, como se fossem duas chaminés. E o moço motorista falou na caixa de som que tinha um fire no WTC, que era de se esperar tráfego lento no sul da ilha. E fomos indo. Saltei na Houston, que para quem não conhece é uma espécie de rua zero, a partir da qual as ruas são numeradas em ordem crescente no sentido norte. Mas meu destino era para o sul, e fui andando na contramão de centenas de pessoas que estavam evacuando os prédios. Hilário, eu com minha mochilinha, achando que teria a tal aula com a SITI Company, enquanto milhares de pessoas tentavam dar um jeito de fugir do prédio em chamas. Do ponto onde eu estava, não tinha como eu saber o que estava acontecendo. Chego no prédio, subo, e vejo aquele climão. Já se sabia que foram dois aviões os responsáveis pelo fire. Ficamos lá especulando quando o J. Ed, nosso professor daquele dia, chega dizendo que aparentente uma das torres « partially collapsed »… Loucura. Descemos e vimos uma das torres em pé e o espaço da outra torre coberto por uma fumaça bem grande. Com o vento a fumaça foi se afastando e revelando a inusitada ausência da torre que caíra. Meu amigo Thogun diria na hora : o bagulho tá neurótico !!! Ficamos naquela situação, centenas de pessoas passando a pé, um grupinho de pessoas olhando para o alto enquanto do carro ao lado com a porta aberta uma voz radiofônica nos mantinha informados sobre os hipotéticos aviões também sequestrados. E aquilo se mantinha. Pescoços em pose, passantes passando, a voz intermitente. Aí simplesmente a segunda torre desmilinguiu. Desmilinguiu antigamente tinha trema, né ? Desmilinguiu sem trema não dá a sensação daquele negócio imenso afundando sobre si mesmo, como se tivesse desistido. O que mais me lembro é uma voz pequena, atrás do meu pescoço, que dizia, sem ênfase : « Oh my god… » E lá se foi a segunda torre. O resto do dia foi uma sequência de fichas caindo, caminhar pela cidade, pois não havia transporte, e ficar meio chapado com o cheiro que foi tomando conta da ilha, seguidos de uma perplexidade geral e interessantíssima, resolvida e enterrada rapidamente pela invasão do Afeganistão. Fim do parêntese)

Enfim, pouco tempo antes, eu tinha ido ver essa peça, IN ON IT. E era interessante. Com certeza devo ter perdido alguma coisa, meu inglês nunca foi incrível, mas alguma coisa incompleta parecia mais sedutora do que repulsiva. Dois atores, várias camadas de interpretação, alguma coisa vinda do cinema. Procurei pelo autor, Daniel MacIvor, canadense, também ator do espetáculo, e não o encontrei. Anos depois, fui com « Ensaio.Hamlet » para o Under The Radar, no Public Theatre. Foi ótimo, encontramos vários amigos e tive o prazer de ver os membros da SITI Company acompanhando o trabalho e ficando orgulhosos. No ano seguinte, soube que o Daniel tinha uma peça no mesmo festival. Pedi o texto para ele. Tudo certo.

Aí é mais ou menos assim. Um trabalho feito rapidamente, sem pesquisa, sem muito espaço para criação. Como se a coisa fosse dar um jeito de mostrar esse texto para as pessoas. Que foi a sensação que tive na época : o texto. E aqui, o ator. Emílio (de Mello) e Fernando (Eiras), incríveis, dando um jeito de procurar como atuar nos diferentes níveis que o texto propõe, e me aguentando falar que nem uma boca do Beckett. Acho que nunca falei tanto. É horrível. E a falta de tempo parece ser um empecilho para experiências, aquecimentos e workshops, e aí parece que tudo deve ser resolvido no entendimento, na verbalização. E é um inferno. Aí eles vem e fazem um workshop surpresa, como foi semana passada, anversário do Fernando. E a gente vai indo, tentando fazer daquele um bom lugar para a gente. E tem sido.

Então, esse blog é pra falar dessa peça, das coisas dessa peça, e do que vier na telha. Se der, vamos pondo vídeos e fotos do ensaio, idéias de cenografia, sei lá. Vamos ver.

por Enrique Diaz

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5 Comentários

Arquivado em Pré-Estréia

5 Respostas para “Começando…

  1. Pingback: In On Daniel MacIvor «

  2. Bolsa Virtuose faz falta.
    “…estes governos de bosta…”
    o q nos resta? senão rir…

    Enrique, Fernando e Emílio… timão!
    Daniel está em bem.
    Estou curiosa.

  3. cooool!!!
    merda rapazes!
    das grandes!
    axé
    loveleca

  4. Primeiro vazio.
    O espaço que não requer construção.
    Depois uma trindade. Enrique, Emílio e Fernando.
    Três Mosqueteiros que na real eram quatro(Talvez Daniel).
    Moiras ou Parcas, fiando com seda, uma trama subjetiva que não previa nem forma,
    nem estrutura.O desafio que pressupõe uma questão.
    Flor da pele, carne viva, palco desnudo, destino, premedição.
    As chaves do Mercedes como convite. Fatalidade.
    E nesse teatro de cenário desnecessário, mas do encontro fundamental,
    tento aqui e ali construir minha Úpermoira, de compensados e traireis de tecido, com peso e densidades imateriais. Eis aqui o meu pecado.

  5. amo muito tudo isso. aprendo loucamente com vcs. tanto que vcs nem imaginam.

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