Nota da Tradutora (2)

N. da T.

Segue o diálogo do blog com a tradutora Daniele Avila que aborda como tema, nesta segunda parte, o Texto e a Tradução.

O TEXTO

O contexto do teatro no Rio de Janeiro parece valorizar a ostentação. Grandes astros, figurinos dignos de passarelas, exposição de “habilidades”. O teatro carioca parece estar orgulhoso por ter atingido uma ideia de maioridade que, no final das contas, diz mais respeito às produções do que à criação artística propriamente dita.

Mas luxo e refinamento não são sinônimos. E nem sempre andam juntos. In on it, pela proposta mesma da dramaturgia, não funcionaria na chave do luxo. Sua estrutura é da ordem da carpintaria, não da superprodução. A teatralidade da peça parece estar justamente na redução dos seus pressupostos ao mínimo necessário. É preciso que cada um faça o seu trabalho com muita atenção, inclusive o público. O texto de Daniel MacIvor não vem mastigado, ele confia no espectador: talvez esse seja um grande diferencial. Ele não trata o espectador como pouco inteligente e muito menos como preguiçoso.

In on it é uma peça que conta uma história. Isso é comum no teatro carioca. Mas não é só isso. Essa história é contada por desvios, por parênteses, por fracassos. E a própria questão de contar uma história ou de como fazer isso é problematizada. A construção das cenas e a criação dos personagens são colocadas à prova enquanto a história é contada. Os registros de atuação que os atores escolhem para cada personagem são tão importantes quanto os personagens em si, e os comentários feitos às cenas são tão relevantes quanto os diálogos que compõem as cenas. O que não significa que esta seja uma peça para “iniciados”. O público não precisa ter uma preparação, pelo contrário, é até bom que vá sem saber o que vai ver. O texto não dá o manual de instruções, mas as ferramentas estão todas lá.

A TRADUÇÃO

O texto de In on it é todo conciso, é construído com precisão. O inglês é uma língua econômica – um monossílabo dá conta de vários sentidos. O português não é assim. Então eu diria que a dificuldade de traduzir In on it está na tentativa de manter o ritmo interno que a peça tem na língua original, é dar conta de dizer o que se tem que dizer sem prolongar as frases, como seria natural fazer na língua portuguesa.

Outra coisa interessante foi tentar entender as sutilezas do autor na diferença de linguagem entre as três realidades distintas que se apresentam na peça. É claro que essa diferença de linguagem deveria se dar mais na cena mesmo, no trabalho dos atores, como o autor indica nas rubricas. Não tem, nas palavras e nas frases, diferenças claras. Mas, na hora de fazer escolhas, a orientação dada pelo autor pra cada plano provocava opções diferentes.

Daniele Avila

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1 comentário

Arquivado em Pré-Estréia

Uma resposta para “Nota da Tradutora (2)

  1. micael

    Será que um dia terei o sonho realizado em ver esse texto disponibilizado? Tradução fantástica. Daria um livro que certamente compraria!

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