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Crítica – FIT São José do Rio Preto

E saiu no site do FIT São José do Rio Preto as impressões do “Leitor Crítico” Luiz Marfuz, que faz parte do Painel Crítico do Festival, uma iniciativa de integração entre público e espetáculo.

FIT

In On It / Enrique Diaz, Fernando Eiras e Emílio de Mello – RJ

É de tirar o chão debaixo dos pés!

Quando e se pensa que quase tudo já feito na região transversal entre realidade e representação, desde quando Pirandello invadiu as fronteiras do metateatro para reivindicar a supremacia da personagem sobre a pessoa e, conseqüentemente, sobre o ator, eis que surge uma peça e um espetáculo em que todas essas camadas se interpõem criativamente, como feixe de fios desencapados; com isso, leva o espectador ao encantamento do jogo, transformando-o num homo ludens, sem estratégias de apelo fácil.

Estamos falando de  In on it, do dramaturgo Daniel Macivor, atração do Teatro do Sesc,  através do talento excepcional – e não-presunçoso – dos atores Emílio de Mello  e Enrique Diaz (também diretor, agora, em substituição temporária de  Fernando Eiras). A peça é um jogo de armar, de montar e desmontar texto, ensaio, ator, personagem, pessoa, público e o que mais vier. Com uma diferença: ao invés de simplesmente desnudar a representação  aos olhos do espectador, o espetáculo, tal como posto, sugere aos menos desavisados que é hora de desconfiar da própria representação em si.

Atuando em tramas-eixo que se enrolam como serpentes –  dois amantes, dois atores, vários personagens de uma peça dentro da peça, um ensaio, uma apresentação em tempo real e por aí vai – o espetáculo risca no chão  do palco precisas marcações de luz e espaço, que dialogam com a dinâmica e ágil força de movimentação dos intérpretes.  Ainda assim, ficamos a pensar, a cada momento, se o que está ali é o drama dos atores, das personagens ou daqueles dois homens, no palco, jogando com a nossa enraizada forma aristotélica de lidar com a recepção.

Os engenhos da trama são tão bem urdidos, que o nem mesmo o público, já dentro do jogo, consegue determinar bem o final. Há horas em que ele acha que sim e aplaude;  mas trata-se de um falso desfecho para zombar das formas recorrentes e reconhecidas da maioria das peças que sabem fisgar o público ao final. Então, o espectador, já espertinho diante do jogo, ou melhor, no jogo mas desconfiando dele, só vai mesmo aplaudir o encerramento do espetáculo, mais tarde,  quando, no plano alto do palco, ainda sob uma atmosfera cênica, os atores sugerem dizer: acabou. Desta vez, o público acerta e faz as pazes com o palco.

Não que estivesse se sentindo enganado; e, se sim, até mesmo gostando disto. É que  o jogo teatral  é tão bem engendrado pelo desempenho da dupla, que o espectador vai “aprendendo” a entrar e sair de cada trama, numa identificação às avessas e longe da projeção mimética, acompanhando o fluxo súbito de emoções e risos, nutrido pelo talento dos atores. Aplaude-se e se  ri, em muitos momentos, das tiradas inventivas do texto e de falas improvisadas, mas principalmente, como estas são enunciadas no palco.

Este tipo de identificação que o espetáculo  proporciona é incomum.  Porque mesmo que nos esqueçamos, por exemplo, das  histórias contadas numa das vias da peça, nunca perdemos o fio do prumo da interpretação do atores, nem o sentido do jogo. Eles  são a nossa  chave-mestra. E qualquer porta que seja aberta,  a gente se sente à vontade para entrar. Com luz geométrica e eficaz, a cena se desenvolve com poucos elementos, em que duas cadeiras e um casaco perpassam todas as tramas, definindo ambientes e atmosferas pela rápida instalação dos atores, que passam de um plano a outro num vapt-vupt de poder eficaz.

No fundo no fundo, com In on it é possível ainda transgredir dramaturgia e encenação, sem que para isso precise abrigar-se numa rubrica que a legitime: metateatro, pós-dramático, não-dramático ou seja lá o que for.  O que vale é que estão ali em completa comunicação  com o público – que pode até mesmo tomar a difícil decisão de caminhar por uma das vias de acesso ao espetáculo –  dois atores em pleno domínio de sua função, para assumir diante do espectador uma aparente simplicidade na forma de atuar, em meio a dinâmicas de rupturas tão complexas.

“Enfins” (como diz um dos atores-personagens-jogadores), In  on it é daquelas experiências artísticas inesquecíveis:  dois atores como ponteiros de relógio, no meio de um círculo, mas que se recusam a ficar dentro dele, pois de lá não se pode ver o todo. Por isso, entram e saem do círculo fechado da representação  – projetado simbolicamente no espaço retangular  do palco – sem nunca jogar o toalha. Podem até jogar o casaco no chão (e o fazem muitas vezes), mas para fazer o jogo continuar. E atores que jogam como estes dois fazem com que “as coisas simplesmente aconteçam” e, por isso, perdemos o chão debaixo dos pés.

Luiz Marfuz

Leitor crítico FIT – Rio Preto 2009

lumaz@uol.com.br

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No lugar

Quem não faz teatro poderia pensar que os ensaios de uma peça sempre têm sido no próprio teatro com o cenário da peça já pronto. Mas não. Não é assim

A gente ensaia num lugar que tem quase nada a ver com o teatro. (“quase” porque, tudo tem a ver com o teatro… !) Onde é ? No Cosme Velho, a casa é simplesmente chamada de “casarão“. Na verdade, é o Centro Cultural Austregésilo de Athayde. Professor, jornalista, e cronista, Austregésilo de Athayde, como muitos sabem, foi o ilustre presidente da Academia Brasileira de Letras por 35 anos.

Um lugar lindíssimo! Grande, espaçoso, branco e azul. Há um jardim que, eu francesa, qualificaria de “tropical”. Lá o vento varre as folhas perdidas no teto e de repente desenham uma queda linda e poética no céu… Tem cobras, macacos e mosquitos. Aliás, lá é pertíssimo de uma rua barulhentíssima (a Cosme Velho). Um dia houve um corte de eletricidade e a gente acabou tendo de ensaiar no jardim, com a suave luz das velas e do dia acabando. Lá tem cheiro da terra molhada. Lá está quente. Muito quente. Demais, na verdade… Depois colocaram muitos ventiladores, mas todo mundo ficou gripado, justamente 3 semanas antes da estréia !!!!

Há pouco tempo, a gente começou a ensaiar no teatro, o Oi Futuro. Aí é diferente. Para começar que é muito frio, ninguém consegue melhorar da gripe (rs)… A sala é um lugar fechado e de paredes escuras (claro!)… Felizmente, o cenário da peça infantil agora em cartaz no teatro alegra a atmosfera do lugar: o chão é laranja e o fundo representa nuvens num céu azul. Mas… Não tem nada à ver com o cenário que estão preparando para o INONIT ! Ali a gente não pode nem fumar, nem comer, nem beber na sala do teatro. Normal? Talvez… Mas na hora do espetáculo, se o ator quer fumar, beber e comer, ele pode… “No espetáculo pode, no ensaio não pode”(?)
O que eu quero dizer ? É que mesmo antes do espetáculo os atores têm que se distanciar do lugar “hic et nunc” para chegar no lugar da ficção..

Ah! Quando for ao espetáculo, leve um casaco!
Beijos e até o próximo post.

Da série Avant-Premiéres da francesa Cécile Dano para IN ON IT

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