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A empatia entre o criador e as suas criaturas por Mariangela Alves de Lima

In On It, do canadense Daniel MacIvor, mostra com delicadeza como todas as identidades se enlaçam de modo inextrincável

MARIANGELA ALVES DE LIMA, Crítica, ESPECIAL PARA O ESTADO


Para aprendizes da língua inglesa, as preposições e os pronomes são uma floresta de enganos. Basta que uma dessas minúsculas partículas seja convocada por erro a reger um verbo comuníssimo ou a substituir um nome e desmoronam, incompreensíveis, laboriosos comunicados ou diálogos cheios de boas intenções. Não é preciso, contudo, aterrorizar-se com o título da peça do canadense Daniel MacIvor, preservado pela tradução de Enrique Diaz. Sob a lista de três palavrinhas estrangeiras abriga-se um tipo de proposta teatral que nada tem de obscura. O lugar onde uma coisa está, o tempo em se situam os agentes de uma narrativa e a identidade de quem faz isto ou aquilo são, na perspectiva da arte, bem mais do que meios para a transmissão de uma mensagem. São peças do jogo entre a arte e o público e In on it assume como valor de face a função lúdica de todo o teatro. Em vez da sintaxe e serviço de uma única narrativa, a peça é uma trama de planos ficcionais, cujo entrelaçamento solicita argúcia dos espectadores. Mas isso não é tudo, uma vez que o raciocínio poderia perfeitamente ser instigado por qualquer enigma matemático. O estado de alerta é, neste caso, preparação necessária para a liberdade de um jogo, cuja ????? repousa em tese sobre a cumplicidade da plateia. Ninguém se engana porque dois atores brincam com a plateia e, desde o início, avisam que se trata de ficção.

A criação de personagens e narrativas por outras personagens que se apresentam, por sua vez, como se fossem interlocutores “reais” é um dos muitos recursos de aproximação e recuo com que o teatro reafirma seu poder de se desvencilhar do real sem que seja preciso arrastar o espectador para o plano imaginário, com o bombardeio de efeitos especiais ou com o ópio do sentimentalismo exacerbado. Em In on it, esse atributo se exibe com uma clareza solar. Dois atores-personagens representam episódios de suas próprias vidas em tempos diferentes, enquanto articulam e representam outra narrativa e outras personagens. Mutações das personagens, das ações e das épocas dispensam o aparato ilusionista para se tornarem críveis. Basta, em primeiro lugar, que o ator se transforme em “outro”. Isso, porém, não é tudo.

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